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Oficina Palavra-Imagem: possibilidades plásticas através da palavra

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A Oficina Audiovisual na Escola, para jovens de 12 a 18 anos, trabalha o audiovisual dentro da perspectiva dos eixos metodológicos da ELC – palavra, corpo e território – misturando com outras linguagens artísticas e seus experimentos. Durante o 1º semestre, tivemos a metodologia “Dança e Filma”, experimentando durante 2 ciclos bimestrais a dança contemporânea através da expressão corporal e do Passinho, transformando os encontros em dois curtas, o “Quadradinho de 8″ e o “Fanque-me”, que foram lançados durante o Iguacine – 4º Festival de Cinema da Cidade de Nova Iguaçu que aconteceu em novembro.

Durante o segundo semestre, de agosto a novembro, tivemos mais uma experiência metodológica, intitulada “Palavra-Imagem”, processo em que pensamos as possibilidades plásticas da palavra, capitaneado pela equipe da ELC com o auxílio luxuoso do mestre Heraldo HB – cineclubista fundador do Cineclube Mate com Angu, animador cultural e escritor, referência da Baixada Fluminense para o mundo. As aulas, como no primeiro semestre, foram intercaladas em aulas de audiovisual e aulas de estímulo à escrita e, no fim, aulas técnicas utilizando o software Adobe After Effects e dando noções de stop motion e animação gráfica, por exemplo, para auxiliar os jovens no desenvolvimento da vinheta produzida por eles para a Mostra ELC 10 Anos em 10 Filmes que exibiu um panorama da produção audiovisual da ELC ao longo desses quase 10 anos.

Durante a primeira aula, os mediadores exibiram o filme “Narradores de Javé”, de Eliane Caffé, com o objetivo de demonstrar a riqueza, diversidade e variedade de histórias que existem mesmo nos “mais remotos” lugares, tendo em vista a relação e a visão negativa que a grande maioria dos jovens tem sobre o seu território.

A segunda aula começou com uma apresentação geral do processo, em forma de bate-papo e em roda, onde cada aluno se apresentou e falou sobre suas expectativas. Após esse momento os jovens participaram da dinâmica “o que é leitura” onde depois de serem questionados sobre “o que é tecnologia” e darem exemplos, foram apresentadosà visão do exercício da leitura e escrita como uma tecnologia, das mais importantes, a ser conhecida e dominada. Essa aula contou ainda com uma sessão de curtas-metragens que formam um apanhado das vertentes da metodologia Palavra-Imagem e debate sobre os filmes da sessão.

Material audiovisual exibido:
- “Cinco Poemas Concretos” de Christian Caselli
- “Contágio” de Oficina Caleidoscópio
- “Rap de Ramos” de Oficina Caleidoscópio
- “O Apanhador de Desperdícios” de Carol Rodrigues
- “Nome” de Arnaldo Antunes

A aula foi encerrada com uma última dinâmica “A palavra próxima ao corpo”, onde os participantes foram convidados a voltarem a atenção para as palavras que estão escritas em objetos que fazem parte do seu dia-a-dia, como por exemplo chinelos, meias, dinheiro, blusas, outdoors, ônibus, fachadas, etc. O exercício pedido para casa foi anotar palavras e frases escritas nas roupas do guarda-roupa de cada um e trazer na próxima aula.

Na terceira aula, com o objetivo de contribuir com o processo de estímulo à escrita nesse início de ciclo, foram distribuídos papéis, lápis e espelhos aos jovens para a realização de um exercício que consistia em olhar o rosto no espelho e descrever da maneira mais detalhada possível seus lábios, pele, olhos, sobrancelhas, nariz e orelhas. Posteriormente, as descrições foram lidas e o grupo tentava adivinhar a quem pertenciam. A segunda etapa do exercício consistiu em refazer as descrições do rosto utilizando outras palavras.

A quarta aula foi iniciada com a exibição do vídeo “Poesias Visuais” de Moduan Matus, seguida de debate sobre o vídeo com ênfase nas possibilidades visuais da palavra e chamando a atenção para as relações entre palavra e significado. Em seguida os jovens participaram da dinâmica “o seu nome como a primeira palavra disparadora”, que consistia em através de um debate sobre o nome como uma das primeiras palavras mais importantes da vida, os participantes escreveram seus nomes ao contrário e se apresentaram em forma de texto. Ao final, cada um leu sua apresentação ao contrário e debateram as dificuldades da construção deste texto. Para finalizar a aula, aconteceu mais uma dinâmica “Inventando uma Palavra e construindo seu significado”, onde a partir da criação individual de uma palavra, criada aleatoriamente com a junção de consoantes e vogais escritas em uma folha de papel, os participantes eram encorajados a escrever em forma de texto o significado da palavra criada, com estímulo à criatividade nessa construção.

No primeiro momento da quinta aula, os jovens foram encorajados a ficar de olhos fechados, em completo silêncio e, alguns segundos depois do silêncio total, pensassem em alguns aspectos dos locais onde moram: rua, casas, calçadas, paisagens, cheiros, memórias. Após algum tempo de estímulo às lembranças, escreveram num papel alguns desses aspectos e em seguida cada um leu sua descrição para a turma. Na segunda parte da aula os jovens escolheram palavras presentes nesse texto/descrição para formar uma frase que contivesse uma rima sobre o lugar em que vivem.

A sexta aula foi dedicada a apresentar vertentes, modos poéticos e suas relações possíveis com o vídeo através dos filmes:

- “3 Haicais” de Paulo Leminski
- “O Pássaro” de Christian Caselli
- “Armazen e Soneto” de Arnaldo Antunes
- “otempoestápassando” de Márcio Valéro
- “finitoinfinito” de Marcelo Câmara Nunes
- “Eixo” de Marcelo Câmara Nunes
- “Origami” de Marcelo Câmara Nunes
- “Videoverso” de Gabriela Marcondes

A interação entre poesia escrita e no vídeo foi inicialmente abordada a partir do texto “Poema em Linha Reta”, apresentado no telão em texto e em duas versões em vídeo (via dramaturgia e via animação). Foram apresentadas aos jovens a corrente da poesia concreta a partir da exibição e discussão sobre poemas clássicos do movimento e a obra poética do poeta Guarnier a partir de uma seleção de poemas curtos de sua autoria, que foram lidos e debatidos. As possibilidades de síntese e de uso de provérbios foram dois dos conteúdos trabalhados a partir das obras do poeta. No final da aula foram pedidos dois exercícios: trazer um ditado popular “alterado” a ser trabalhado em aula e um poema, de autoria própria ou que o participante goste bastante.

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A sétima aula começou com projeção e leitura coletiva de haicais de diversos autores brasileiros reunidos no livro “Boa Companhia – Haicai” da editora Companhia das Letras. Após essa primeira leitura coletiva, as poesias foram revisadas afim de contribuir para que os jovens encontrassem o ponto central-comum entre elas – trabalho de observação do espaço e duas rimas. Com o ponto central-comum percebido, foi exibido com o auxílio do projetor um esquema que ilustrou como as rimas estavam dispostas na poesia, afim de gerar maior entendimento e compreensão do “esquema” e encorajar os jovens a realizarem suas primeiras aventuras no mundo dos haicais. O restante da aula foi totalmente dedicado à prática da escrita utilizando esse modelo e ao final do encontro, realizamos um pequeno Sarau onde todos os jovens foram estimulados a subirem numa cadeira para declamar os versos que construíram ao longo do encontro.

No primeiro momento da oitava aula, foi exibida uma série de fotos que ilustram ditos populares com o objetivo de estimular a memória dos jovens, o grupo tentava acertar qual o dito a cada foto diferente. O segundo momento do encontro aconteceu na biblioteca com os jovens sendo estimulados a construir trocadilhos para os ditos populares, a ideia era alterar ou ampliar o sentido do dito através da alteração de uma ou duas palavras.

Durante a nona aula os jovens foram estimulados a produzir 3 pequenas listas, cada uma com 3 palavras, que identificaram como positivas, negativas e imperativas. Após uma roda de leitura onde todos mostraram as palavras listadas, os jovens foram incentivados a criarem 6 frases – 3 “positivas” e 3 “negativas” – misturando as palavras listadas inicialmente.
Durante a décima aula foram apresentadas aos jovens possibilidades de narrativas e a contação de histórias como arte e técnica. Para isso foram exibidos trechos de vídeos e fotos, além de ser apresentado o mito de “Sherazade e As Mil e Uma Noites” como exemplo da necessidade humana de ouvir e contar histórias. Através de exemplos foram abordados também os assuntos expectativa e estrutura mínima de narrativas (conflito, expectativa, desfecho).

Material audiovisual exibido:

- vídeos retirados da Internet contendo narrativas feitas “ocasionalmente” e ainda um trecho do filme “O Urso” de Jean Jacques Annoud.

- vídeo-poesia “Descontinuidades” de Roberta Dittz

- “Histórias do Dedão da Unha do Pé do Fim do Mundo” de Evandro Salles.

Na prática de escrita do dia os participantes, sentados em roda, desenvolveram textos coletivos a partir de frases criadas na hora. Cada um escreveu uma frase em uma folha de papel e depois foi passando essa folha para a pessoa ao lado, complementando com outra frase a frase anterior. No final os jovens leram o exercício e conversaram sobre a dinâmica.

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A décima primeira aula foi dividida em dois momentos distintos. Na primeira parte os jovens foram encorajados a descrever o caminho que fazem de casa até a Escola Livre de Cinema, de maneira breve e objetiva em 5 etapas. Ao final do encontro, propomos que os jovens fizessem uma breve reflexão e avaliação escrita sobre este ciclo de estímulo à escrita até o momento, afim de compreendermos de uma outra maneira como tem sido a relação com as propostas apresentadas.

A décima segunda aula foi iniciada com uma dinâmica sobre as formas em que o texto pode surgir na tela, realizada a partir de apresentação e análise de fotos com ilusão de ótica e construção de realidade a partir da perspectiva.
Também foi feito o primeiro briefing com temas que podem ser abordados no trabalho final e discussão sobre alguns desses temas.

Material audiovisual exibido, seguido de debate:

- trecho do curta-metragem experimental “Prefácio” de Igor Cabral
- “A Palavra Mais Difícil” de Bruna Baitelli
- “Super Clever Sunglass Illusion” de Brusspup

Foram apresentados três exemplos de uso plástico das palavras a partir dos projetos Cédula Anarquista e Poesia Segunda Pele, além de uma coletânea de frases escritas em ônibus. A aula terminou com um debate sobre comunicação, ética e as relações imagem-palavra.

O documentário “Só Dez Por Cento É Mentira” de Pedro Cezar foi exibido e discutido durante a décima terceira aula como estratégia de aproximação entre os alunos e a obra do poeta Manoel de Barros.
Durante a décima quarta aula, os jovens foram divididos em duplas e, a partir do “cardápio de temas” construído na décima segunda aula, os participantes escolheram que temas gostariam de abordar no trabalho final, seguido de debate gerando problematizações sobre os temas escolhidos. Depois do debate os participantes revisaram os textos e saíram da aula com a primeira versão do texto final de cada dupla.

Depois de passar por exercícios de estímulo à escrita através de rimas e ditados populares, a décima quinta aula voltou ao exercício do haicai. Dessa vez, com a bagagem adquirida, o aproveitamento dos jovens foi bem maior.
A décima sexta aula foi uma extensão da aula anterior, com acompanhamento da construção dos textos, com as turmas dividas por duplas, seguido de leitura e debate dos trabalhos produzidos.

Durante a décima sétima aula os jovens falaram sobre o bairro de Austin. Os mediadores pediram que os jovens falassem palavras positivas e negativas sobre esse território enquanto produziam uma lista no flip chart. Depois de mapear essas palavras, o sentido que elas dão ao bairro, e vice-versa, os participantes realizaram uma lista com palavras que remetiam a ideia de cinema (exemplos: janela, tela, projeção, movimento). Após a leitura das palavras listadas, foi pedido aos jovens que continuassem a lista no caminho entre a Escola de Cinema e suas casas, para que elas fossem adicionadas na lista geral de palavras.
A décima oitava aula foi iniciada com projeção de uma seleção de imagens de cartazes, lambe-lambes, stêncils, projeções de frases, poemas curtos e intervenções plásticas contendo palavras. No segundo momento os jovens realizaram junto aos mediadores uma releitura crítica dos textos construídos por cada participante, com contribuições e observações da turma. A partir do tratamento do texto, os participantes foram estimulados a produzirem uma síntese da ideia do texto em uma ou duas frases, utilizando referências trabalhadas. A aula terminou com uma leitura conjunta das frases construídas pelas duplas.

Na décima nona aula, os jovens trouxeram palavras catadas pelas ruas de Austin, entre o trajeto Escola x Casa, ligadas a aspectos positivos e negativos do bairro para incluir na lista já iniciada na décima sétima aula. Após uma breve leitura de todas as palavras positivas, negativas e cinematográficas de nossas listas, os jovens foram estimulados a construírem pequenas frases que misturando as palavras de aspecto positivo ou negativo à ideia de cinema.

Na vigésima aula os alunos e alunas foram incentivados a organizarem um pequeno sarau na ELC, como incentivo ao compartilhamento de alguns dos textos produzidos para contribuir com a ideia de desenvolvimento da escrita através da prática a partir dessa revisão.
Durante a vigésima primeira aula, primeira aula técnica para dar vida à vinheta exibida antes da Mostra ELC 10 Anos em 10 Filmes no 4º Iguacine, foram apresentados alguns vídeos de animação com o intuito de abrir um repertório de possibilidades e apontar algumas soluções para criação de efeitos na produção de vídeos. Os mediadores falaram sobre rotoscopia, stop motion e animação gráfica com os jovens, além da utilização de diferentes softwares e técnicas na composição de efeitos, como o Adobe After Effects + software de VJ e uso de scanner, fotografia e vídeo na captura de imagens.
Os mediadores mostraram dentro de um projeto aberto no Adobe After Effects, um exemplo de animação: como pôr uma película em movimento a partir de um negativo de fotografia scaneado. Mostraram também como fazer um stop motion, abrindo um projeto de uma animação e mostrando a disposição das imagens na timeline, a velocidade, etc, além de realizar com os alunos uma sequência de disparo de fotos para dar um exemplo de stop motion. A partir disso, os mediadores falaram sobre os primeiros estudos em registro do movimento, mas ao invés de falarmos de Muybridge, falamos do Marey, e sua pistola que fotografava através dessas imagens: http://goo.gl/rfTTaI / http://goo.gl/OP0BSb.

Material audiovisual exibido:
- “Waking Life” de Richard Linklater
- “Neighbours” de Norman McLaren
- Vinhetas realizadas para festivais e festas e vídeos utilizando o “Kinect” (sensor de movimento)

Na vigésima segunda aula, os jovens foram estimulados a perceberem as possibilidades plásticas da palavra. Num primeiro momento, com todos reunidos em torno de um scanner, os jovens foram apresentados ao dispositivo de captura de imagens através de comparação com a câmera fotográfica. Após uma explicação básica sobre o funcionamento e operação do equipamento, os jovens experimentaram scannear diferentes partes do próprio corpo e/ou objetos. Num segundo momento, os jovens foram estimulados a reproduzir de maneira plástica as frases que desenvolveram em dupla através de pinturas e desenhos. Todos os resultados foram scaneados e exibidos ao final do encontro.

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Durante a vigésima terceira aula, os jovens fizeram uma animação no software Adobe After Effects, desmistificando um pouco a criação de animação gráfica, com o objetivo de começar a inseri-los no processo de criação. No primeiro momento, os participantes criaram alguns textos como objetos: palavra lua para representar lua, sol para representar sol, etc; alterar o tipo da fonte, tamanho e cor; e movimentar as palavras pela tela com posição, rotação, acompanhado de explicações sobre keyframes e timeline. Em seguida, os jovens buscaram imagens no google e substituiram as palavras por imagens, fazendo uma pequena animação na qual um foguete chega até a lua. O objetivo de pedir aos alunos que procurassem por imagens no google ao invés de trazer imagens prontas foi estimular o exercício de escolha, de autonomia estética.

Na vigésima quarta aula, através da leitura das frases desenvolvidas pelas duplas, os jovens identificaram/escolheram palavras centrais dessa construção para realizarem um experimento que consistiu na projeção da palavra escolhida em diferentes partes do corpo dos jovens.

Durante a vigésima quinta aula os jovens exercitaram o desenvolvimento das frases criadas pelas duplas em micro-roteiros, movimentos, imagens, tudo pensado e colocado no papel. As duplas que melhor desenvolveram suas frases foram selecionadas pelas turmas para serem produzidas e transformadas em vinheta. Foram escolhidas 3 frases de cada turno.

As turmas da manhã e da tarde realizaram processos diferentes durante a vigésima sexta aula: a turma da manhã continuou produzindo material para a produção do vídeo final, fazendo stop motion para os micro-roteiros. Depois, produziram fotos nas quais seus corpos formavam letras do alfabeto, formando o título “juventude e futuro”. No final, os mediadores dividiram a turma em grupos para começar a trabalhar as imagens no Adobe After Effects.

A turma da tarde já iniciou a aula no processo de produção dos vídeos utilizando o Adobe After Effects para trabalhar as fotos que foram produzidas na aula anterior, formando pequenas unidades/sequências do trabalho final.

A vigésima sétima aula começou com os jovens navegando pelas ferramentas Google Earth e Google Maps, fazendo reconhecimento de território, andando pelas ruas dos bairros e visitando escolas e as casas de cada aluno presente. Mediadores e jovens conversaram sobre a possibilidade do uso dessas ferramentas para a construção de narrativas audiovisuais, utilizando as imagens por satélite e registrando com programas que gravam a tela do computador. No final da aula foi realizada uma apresentação/avaliação do trabalho montado com as sequências que começaram a trabalhar na aula passada, inspiradas nas frases construídas no ciclo de desenvolvimento de escrita.

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Na vigésima oitava aula, última do ano, os mediadores realizaram uma roda de conversa afim de coletar algumas impressões dos jovens sobre os processos artísticos realizados ao longo de 2015, com um foco maior no ciclo metodológico “Palavra-Imagem”, mas passando também por outras questões, inclusive o espaço da Escola e o que os jovens acreditavam que poderíamos aprimorar, por exemplo. Além da reflexão sobre os processos já vividos, os jovens também foram estimulados a sugerirem práticas estéticas que possam contribuir com a elaboração das metodologias que serão realizadas em 2016.

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