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Vídeo Arte: experimentações e valorização do gesto

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As aulas da Oficina de Vídeo Arte no mês de maio se iniciaram com a análise dos filmes experimentais, não-lineares, que fogem da lógica causal – onde a narrativa é construída a partir da relação entre causa e efeito (narrativa aristotélica clássica) – e investem em novos formatos e modelos de organização dramática, sob influência da música, da dança e das artes plásticas. Para tanto, foram apresentadas e debatidas com os jovens, através de exibição de filmes, as obras de dois importantes artistas do campo da vídeo dança: Maya Deren, pioneira da vídeo dança no mundo e Norman McLaren, importante animador escocês que se consagrou por sua técnica de desenho diretamente na película.

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Nesse primeiro momento houve também uma revisão do que já havia sido apresentado em aula sobre a linguagem cinematográfica, agora refletindo sobre questões de profundidade de campo – repetição, profundidade, lógica musical no som e nos movimentos, posição dos corpos no quadro, durações diferentes, complementaridade e acúmulo – e posicionamento e movimento de câmera. Além da exibição dos filmes “Deixa Voar” de Cadu Barcellos (episódio do longa “5X Favela – Agora Por Nós Mesmos) e “Nunca fui, mas me disseram” de Bruno Vianna, Jacqueline Martins, Priscila Marques, Taisa Moreno e Verônica Trindade, exibidos com o objetivo de discutir sobre representação dos territórios populares no audiovisual.

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Com o objetivo de mostrar aos jovens recursos, técnicas e novas abordagens cinematográficas através da vídeo arte e expandir seus interesses, na sequencia os mediadores pontuaram alguns filtros históricos que contribuíram para reforçar a experiência do movimento, como a invenção da luz elétrica, a fotografia e a convergência de interesses na década de 60 que juntou artistas de dança e artistas plásticos para performarem através do vídeo.  Foram abordados também a composição musical – construção da imagem a partir de uma estrutura matemática com ênfase no ritmo e nas escolhas que priorizam a harmonia espacial – e composição a partir da ideia de planos – diferenciação entre planos vertical, sagital e horizontal , percebendo os personagens como linhas de forças, traços, trajetos traçados num quadro.

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A partir daí até o fim do mês os trabalhos ficaram focados no gesto, sua percepção, qualidade, contexto e significado. Inicialmente, exercícios tiveram como objetivo discutir o limite/abertura dos signos gestuais, sobre os deslocamentos dos sentidos na recepção do gesto do outro (como a ação do outro me afeta – conversas sobre a possibilidade de um simples gesto, como esfregar os dedos, atingir contextos e ações diversas e como a posição de quem olha interfere no que esta sendo olhado, no “peso” e na força do objeto focado), além de introduzir o assunto de planos e duração para realização e qualidade gestuais/de movimento, a partir dos preceitos do sistema LABAN de análise de movimento e do seu “Estudo dos Esforços”. Durante os exercícios temas como jogo de mágica, dança, estudos, problemas com álcool e violência doméstica e a vida pautada pelo celular surgiram e foram incorporados ao mapeamento de referências que servirão de base para a produção da videoinstalação. Por fim, foi discutida em aula a relação entre gesto e palavra, a interrelação entre palavra e ação gestual e a não suficiência da palavra falada para objetivar seu conteúdo.

CLIQUE AQUI PARA VER OS EXERCÍCIOS REALIZADOS PELOS ALUNOS NESSE PERÍODO!

Paralelo a isso, nas aulas de prática cinematográfica os jovens foram incentivados a criar roteiros, gravar e editar, realizando pequenos vídeos que valorizassem o gesto ao invés da narrativa. Em breve esses exercícios também estarão disponíveis aqui no Blog!

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A partir deste ponto, os assuntos serão mais específicos para que jovens e mediadores pensem juntos o tema e os formatos que serão desenvolvidos para a videoinstalação. No próximo dia 11/06 as turmas da Oficina de Vídeo Arte entram em recesso respeitando o calendário escolar do município de Nova Iguaçu, retornando no dia 01/07 com força e gás total!

Abaixo segue a relação dos filmes/vídeos exibidos e exercícios realizados em sala de aula.

 

Filmes/vídeos:

- “Ritual in a Transfigured Time” de Maya Deren – 1946

- “The Very Eye Of Night” de Maya Deren – 1956

 - “Canon” de Norman McLaren – 1964

 - “Passinho do Faraó – MC BinLadem”

 - “Tango” de Zbigniew Rybczyński – 1982

 - “Neighbours” de Norman McLaren- 1952

 - “Three Transitions” de Peter Campus – 1973

 - “The Book Of Days” de Meredith Monk – 1988 (trecho)

- “Dots” de Norman McLaren – 1940

 - “A Chairy Tale” de Norman McLaren – 1957

 - “Sensações Contrarias” de Amadeu Alban, Jorge Alencar e Matheus Rocha (2006/07)

 - Le P’tit Bal”, de Philippe Decouflé – 1993

 

Exercícios:

- Enquadramento e profundidade 1: num espaço pequeno e pré determinado que simula o enquadramento da câmera, um grupo de 4 jovens têm de se posicionar dentro do quadro pensando profundidade de campo.

- Enquadramento e profundidade 2: desdobramento do exercício anterior combinando movimento (minicoreografias) pra pensar a relação com o ponto de vista e coordenação interna.

-Percepção e acumulação:

1. Em circulo, os alunos falam seu nome um de cada vez na duração de duas palmas até completar o circuito. Em seguida, cada um diz livremente o nome de outro aluno da roda que pega a vez e assim por diante.

2. Roda de gestos: cada aluno realiza um gesto que é repetido por todos logo após.  O objetivo é se conscientizar da nossa percepção da qualidade do movimento do outro, da intensidade, da duração e conseguir repeti-lo tal qual.

3.  Acumulação de gesto: cada aluno realiza um gesto, o aluno seguinte repete esse primeiro gesto e adicionar outro, o terceiro aluno repete os dois primeiros gestos, adiciona outro e assim por diante.

4. A turma é dividida em 3 grupos. Um grupo cria e conta uma história através de 4 gestos. Os outros dois grupos observam de pontos diferentes do espaço e depois contam sua interpretação. A partir daí os grupos se revezam nas funções.

- Deslocamento de gesto: realizar um vídeo de até dois minutos filmando um gesto sendo repetido 3 vezes em contexto diferentes.

- Compilação de gestos: após demonstração de alguns gestos da coreografia que uma aluna faz na Igreja Pentecostal que frequenta, os alunos praticaram ressignificação dos gestos através da alteração de suas qualidades (rápido, devagar, forte, suave…) até que seus sentidos se alterassem. A partir daí os alunos criaram uma pequena célula coreográfica com a compilação dos gestos.

- Roteiro, realização fílmica e montagem 2: os participantes se organizam em grupos e cada um deles escreve um roteiro norteado pelas perguntas  ”O que?” (que ação/ gesto será executado no vídeo?), “Onde?” (locação, podendo ser em espaço descontínuo), “Como?” (decupagem do roteiro pensando plano, enquadramento, posicionamento  e movimento de câmera) que deve valorizar o gesto sem a obrigatoriedade de criar uma narrativaDepois, por ordem de finalização dos roteiros, os participantes filmam em cinco planos um ou mais gestos, pensando sempre a relação da câmera com o corpo filmado e a montagem. Por último, a partir dos roteiros e do material filmado, os participantes editam os vídeos em grupo (exibição do programa com o projetor para os participantes assistirem a edição em tempo real) com uma breve explicação do mediador sobre o programa utilizado para a edição, nesse caso o Adode Premiere. Os participantes devem estar atentos decidindo os momentos de cada corte e passagem de cada plano.

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